Evento reúne C6 Bank, Bradesco, BV e outras instituições para discutir até onde a inteligência artificial pode decidir sem supervisão humana.
Até pouco tempo atrás, a pergunta que dominava as reuniões de tecnologia dentro dos bancos era se valia a pena adotar inteligência artificial. Em 2026, essa fase parece encerrada. O debate agora é outro, e mais delicado: até onde um agente de IA pode tomar decisões sozinho dentro de um banco, sem que um humano confira o resultado antes? Essa questão ficou clara em um encontro recente entre líderes de tecnologia do setor financeiro brasileiro, que discutiram governança, segurança e os limites práticos da chamada IA agêntica, tecnologia capaz não apenas de responder perguntas, mas de planejar e executar tarefas inteiras de forma autônoma. Entender o que já está em operação, e o que ainda depende de regras que não existem, ajuda a explicar por que essa mudança é mais profunda do que parece à primeira vista.
O que é o “Banco 5.0” e por que o debate mudou de tom
Em julho de 2026, o evento “Banco 5.0: IA Agêntica no Setor Financeiro” reuniu lideranças de tecnologia de instituições como Clara, Mycon, Creditas, Brasilprev, Zurich Seguros, Cora, C6 Bank, Generali Brasil, Aarin, Banco BV, BS2, Genial Investimentos, SuraBrasil, Porto Bank e Azos, além de especialistas em observabilidade e segurança, para discutir como a IA agêntica está redesenhando produtos e modelos de negócio no setor financeiro. O encontro marcou uma virada no tom da conversa sobre o tema: em vez de debater se a tecnologia deve ser adotada, os participantes discutiram em conjunto até onde ela pode assumir decisões de forma independente, questão que antes ficava em segundo plano nesse tipo de discussão. TI INSIDE
A conclusão compartilhada pelos executivos foi de que a evolução dessa tecnologia não depende apenas do avanço dos modelos de inteligência artificial, mas da combinação entre qualidade dos dados, arquitetura tecnológica, mecanismos de governança, observabilidade, segurança, gestão de riscos e transformação cultural dentro de cada instituição. Na prática, isso significa que o desafio técnico de fazer um agente funcionar já não é o maior obstáculo. O que falta, segundo os próprios participantes do encontro, é definir com transparência quais decisões podem ser delegadas a sistemas automatizados e quais devem continuar exigindo julgamento humano, especialmente em um setor tão regulado quanto o financeiro. TI INSIDE
Como os grandes bancos já usam agentes de inteligência artificial
Cada instituição parece seguir um caminho próprio dentro dessa transição. Enquanto o Itaú tem priorizado a ampliação de agentes autônomos capazes de executar tarefas complexas e tomar decisões em tempo real, o Banco do Brasil tem concentrado esforços na integração entre humanos e inteligência artificial, e o Santander busca consolidar uma organização orientada por IA, na qual a tecnologia amplifica capacidades humanas em vez de simplesmente substituir tarefas. Essas diferenças de estratégia mostram que não existe um único modelo de adoção sendo seguido pelo mercado, mas sim variações que dependem da cultura interna e da maturidade tecnológica de cada banco. TI INSIDE
Um exemplo de trajetória mais longa é o do Bradesco. A plataforma de inteligência artificial do banco começou em 2016, ganhou escala e personalização em 2024 cobrindo praticamente todo o quadro de funcionários e ampliando o atendimento a milhões de clientes, avançou para um framework corporativo com múltiplos modelos de linguagem em 2025, e chegou em 2026 a uma versão com capacidades agênticas, incluindo um mercado interno de múltiplos agentes especializados e atendimento por voz em tempo real. Esse tipo de roteiro de longo prazo ilustra como a adoção de IA nos grandes bancos deixou de ser um projeto pontual e passou a fazer parte da própria arquitetura de tecnologia dessas instituições, com etapas de maturidade bem definidas ano a ano. Startse
Regulação ainda não existe: o que está sendo discutido no Brasil e no mundo
Enquanto a tecnologia avança dentro dos bancos, a regulação específica sobre o tema ainda não saiu do papel no Brasil. O Banco Central incluiu na sua agenda de prioridades para o biênio 2025 e 2026 o estudo dos riscos e impactos do uso de inteligência artificial no sistema financeiro, e um representante da área de Regulação do Sistema Financeiro do BC afirmou que não haverá regra específica para IA antes do fim de 2026, já que o regulador ainda está conversando com o mercado para entender como a tecnologia está sendo usada na prática. Um dos conceitos centrais nesse debate é a explicabilidade, ou seja, o princípio de que toda decisão automatizada capaz de afetar uma pessoa precisa ter uma razão auditável e possível de ser contestada, algo que ainda não está formalmente garantido no país. CNN Brasil
O tema também começa a ganhar contornos internacionais. No Reino Unido, um relatório publicado em julho de 2026 pelo órgão regulador do setor financeiro projetou quatro mudanças esperadas até 2030 na forma como a inteligência artificial vai reorganizar as finanças de varejo, incluindo a avaliação sobre se assistentes de uso geral que orientam decisões financeiras deveriam passar a ser supervisionados como se fossem consultores financeiros. No Brasil, fintechs reunidas em um evento do setor colocaram segurança e governança no centro das discussões, pressionadas por uma onda de fraudes e por exigências cada vez maiores do Banco Central, ainda sem um mapa regulatório tão detalhado quanto o publicado pelos britânicos. Esse contraste mostra que o Brasil avança rápido na adoção prática da tecnologia, mas ainda caminha mais lentamente na construção das regras que deveriam acompanhar essa mudança. Let’s MoneyLet’s Money
A inteligência artificial já deixou de ser um projeto experimental dentro dos bancos brasileiros e passou a integrar decisões que afetam diretamente a vida financeira das pessoas, da aprovação de um cartão de crédito ao bloqueio de uma transferência suspeita. O que ainda está em construção é o conjunto de regras capaz de garantir que essas decisões sejam transparentes e possam ser questionadas por quem é afetado por elas. Acompanhar como bancos e reguladores resolvem essa equação nos próximos meses ajuda a entender que tipo de sistema financeiro está sendo moldado para o consumidor brasileiro.
Fontes consultadas: TI Inside Online (link), TI Inside Online (link), StartSe (link), CNN Brasil (link), Let’s Money (link)
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