A decisão do banco central americano, tomada em meio à guerra no Oriente Médio, elevou a taxa de juros pela primeira vez desde 2023 e testou a resiliência do mercado cripto
O mercado financeiro internacional viveu dias de tensão entre a quarta e a quinta feira desta semana, depois que o Federal Reserve decidiu elevar a taxa de juros americana em 25 pontos base, levando o piso para a faixa entre 3,75% e 4,00% ao ano. A decisão, tomada de forma unânime por 12 votos a zero, marcou a primeira alta de juros promovida pela autoridade monetária dos Estados Unidos desde 2023 e surpreendeu parte dos investidores que esperavam um Fed mais cauteloso diante do cenário de guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, conflito que já dura sete meses e vem pressionando os preços de commodities em escala global.
O movimento do Fed e a reação inicial do mercado
A justificativa apresentada pelo Federal Reserve para o aumento dos juros está diretamente ligada às pressões inflacionárias derivadas do conflito no Oriente Médio, que se espalhou do Golfo Pérsico para instalações na Arábia Saudita e afetou a cadeia de suprimentos de energia em escala mundial. Com isso, a autoridade monetária optou por conter a inflação por meio de um aperto monetário, revertendo a expectativa de parte do mercado, que apostava em manutenção da taxa.
O comitê também manteve a prerrogativa de realizar compras de títulos do Tesouro americano, com o objetivo declarado de preservar as reservas bancárias do sistema financeiro dos Estados Unidos. Segundo analistas ouvidos por veículos especializados em mercado financeiro, essa combinação entre alta de juros e manutenção de instrumentos de liquidez sinaliza que o Fed tenta equilibrar o combate à inflação sem provocar um aperto excessivo nas condições de crédito.
A reação inicial dos mercados de risco surpreendeu parte dos analistas. Em vez de recuar, como normalmente ocorre diante de um aperto monetário inesperado, o Bitcoin chegou a subir cerca de US$ 1.500 logo após o anúncio, alcançando a casa dos US$ 76.500. O movimento evidencia que parte dos investidores já havia precificado um cenário de juros mais altos e reagiu de forma favorável à clareza trazida pela decisão do Fed, mesmo em um ambiente de maior aversão a risco.
Apesar da valorização pontual, o rali do Bitcoin perdeu força nas horas seguintes, e o ativo passou a oscilar em um intervalo mais estreito, entre US$ 75 mil e US$ 77 mil, ao longo dos dias seguintes. Esse comportamento é lido pelo mercado como um sinal de que o otimismo inicial ainda não se traduziu em uma tendência de alta consistente, especialmente diante das incertezas que seguem no radar dos investidores internacionais.
Bitcoin sustenta patamar de US$ 76 mil apesar da pressão
Na manhã desta quinta feira, 17 de setembro, o Bitcoin era negociado próximo a US$ 76.700, o que representa uma valorização diária de cerca de 1% e uma capitalização de mercado na casa de US$ 1,54 trilhão. O ativo segue, porém, cerca de 39% abaixo da sua máxima histórica, registrada em US$ 126.080, o que reforça a leitura de que o mercado cripto ainda não recuperou totalmente o fôlego perdido ao longo do ano.
O Índice de Medo e Ganância, um dos principais termômetros de sentimento do mercado cripto, marcava 50 pontos nesta quinta feira, em território neutro, uma queda em relação aos 51 pontos do dia anterior. Segundo análises de casas especializadas, o indicador vinha de níveis bem mais altos ao longo de setembro, o que sugere uma mudança de humor entre os investidores, de um otimismo mais forte para uma postura de maior cautela.
Analistas do JPMorgan, citados por veículos internacionais de mercado, apontaram que o Bitcoin pode ganhar espaço em relação ao ouro caso os investidores comecem a desmontar posições defensivas nos fundos de índice (ETFs) de criptomoedas. Segundo o banco, os ETFs de Bitcoin recuperaram apenas cerca de metade das saídas de capital registradas ao longo de 2026, enquanto os fundos ligados ao ouro já compensaram integralmente as perdas do período, o que indica uma migração de recursos para ativos considerados mais seguros diante do cenário de juros altos e conflito geopolítico.
As criptomoedas de menor capitalização, as chamadas altcoins, acompanharam a leve recuperação do Bitcoin, com Solana, Ethereum e BNB registrando altas entre 2% e 3,5% no mesmo período. O volume negociado em 24 horas em todo o mercado cripto somou cerca de US$ 30 bilhões, um patamar considerado relevante e que reforça a liquidez do setor mesmo em um momento de maior volatilidade.
O que esperar dos próximos movimentos do mercado
Para investidores e gestores de fundos que acompanham o mercado cripto e os ativos de risco de forma mais ampla, a grande dúvida agora é se o Federal Reserve dará continuidade ao ciclo de alta de juros ainda em 2026. Segundo publicações especializadas, o mercado já precifica a possibilidade de mais dois aumentos na taxa americana, o que tende a manter a pressão sobre ativos considerados mais sensíveis à liquidez global, caso do Bitcoin e das demais criptomoedas.
Do ponto de vista técnico, analistas apontam que o Bitcoin mantém uma tendência de alta de médio prazo, sustentada acima das médias móveis de 50, 100 e 200 dias. Ainda assim, o Índice de Força Relativa, indicador usado para medir a força de uma tendência, oscila próximo ao patamar neutro, o que sugere uma desaceleração no ímpeto de valorização do ativo nas últimas semanas.
Um dos pontos observados de perto pelo mercado é a chamada zona de suporte entre US$ 75 mil e US$ 76 mil, considerada crucial para que o Bitcoin evite uma correção mais expressiva. Caso essa região seja rompida para baixo, analistas apontam a possibilidade de o ativo testar patamares mais próximos de US$ 72 mil a US$ 74 mil, enquanto uma recuperação consistente dependeria da retomada da região entre US$ 77 mil e US$ 78 mil.
Para além do universo cripto, a decisão do Federal Reserve também repercute no mercado de câmbio e nos ativos de renda fixa globais, já que juros mais altos nos Estados Unidos tendem a atrair capital para o dólar e para títulos americanos, em detrimento de moedas e ativos de mercados emergentes. Investidores brasileiros que possuem exposição internacional devem, portanto, monitorar de perto os próximos comunicados do Fed, já que qualquer sinalização de novos aumentos tende a impactar diretamente o fluxo de capital estrangeiro para o Brasil.
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