Empresa que transformou o parcelamento sem cartão de crédito em um negócio de R$ 520 milhões de receita anualizada agora estrutura a tecnologia para levar o modelo ao caixa de farmácias, lojas de departamento e outros pontos de venda físicos
A fintech brasileira Pagaleve, especializada em parcelamento de compras via Pix, anunciou nesta semana os detalhes de um plano para expandir sua tecnologia para o varejo físico, movimento que ocorre logo depois de a empresa registrar um crescimento de 400% em sua receita ao longo do último ano. A companhia, que nasceu em 2021 oferecendo uma alternativa ao cartão de crédito no comércio eletrônico, chegou a julho deste ano com receita anualizada de cerca de 100 milhões de dólares, o equivalente a R$ 520 milhões, e já mira um novo patamar de 200 milhões de dólares nos próximos meses.
Como funciona a tecnologia por trás do parcelamento sem cartão
O modelo de negócio da Pagaleve se baseia em um motor de decisão proprietário, desenvolvido internamente pela fintech, capaz de analisar mais de 100 variáveis referentes a cada transação e aprovar ou recusar um pedido de parcelamento em até três segundos. Diferentemente do que ocorre no crédito tradicional, em que um limite fixo é atribuído ao consumidor com base em seu histórico financeiro, a tecnologia da empresa avalia cada compra de forma isolada, levando em conta dados sobre o produto, o comportamento do consumidor e o contexto da transação.
Segundo Eduardo Zucareli, diretor de operações comerciais da companhia, essa abordagem permite que uma mesma pessoa receba respostas diferentes ao tentar parcelar produtos distintos, em horários diferentes ou em situações que o sistema considera mais ou menos arriscadas. A empresa afirma aprovar, em média, 65% das transações submetidas ao seu modelo, com uma taxa de inadimplência registrada em torno de 2% no quarto trimestre de 2025, período em que a fintech já assumia integralmente o risco da operação, sem repassar esse ônus ao varejista parceiro.
Essa característica é justamente um dos principais argumentos de venda da empresa junto aos lojistas: como a Pagaleve assume o risco de inadimplência e também o de chargeback, o estorno de compras contestadas pelo consumidor, o varejista recebe o valor da venda independentemente do que acontece depois com o pagamento parcelado. Hoje, a tecnologia da fintech já está integrada ao checkout de grandes varejistas online, entre eles Shein, Temu, Raia, Drogasil, Vivara, Farm, Reserva, Cobasi, Hering e New Balance.
A companhia também compartilhou dados sobre o impacto da tecnologia no comportamento de compra dos consumidores. Em parceria com a rede de farmácias Pague Menos, iniciada em 2023, um levantamento indicou que 82% dos clientes que utilizaram o parcelamento da Pagaleve nunca haviam comprado antes na varejista, o que sugere que a disponibilidade da tecnologia de parcelamento pode viabilizar vendas que, de outra forma, não se concretizariam. Na mesma rede, o ticket médio das compras feitas com a tecnologia da fintech é 40% superior ao registrado nos demais meios de pagamento, enquanto na loja de roupas Reserva essa diferença chega a 15%.
O desafio de levar a tecnologia para o caixa das lojas físicas
O próximo passo da Pagaleve é justamente reproduzir essa experiência fora do ambiente digital, em que a tecnologia da empresa já nasceu integrada de forma nativa ao processo de finalização da compra. Segundo Zucareli, a estratégia da companhia é evitar a criação de uma solução separada, como um aplicativo adicional ou uma tela isolada que obrigue o atendente da loja a interromper o atendimento para consultar se determinado cliente pode receber crédito, jornada considerada problemática especialmente em operações de grande fluxo, caso de farmácias e lojas de departamento.
Para viabilizar essa integração, a fintech afirma estar desenvolvendo conexões diretas com os sistemas de automação comercial já utilizados pelos lojistas, plataformas que concentram etapas como venda, pagamento e gestão do caixa físico. A empresa já opera em algumas unidades físicas de varejistas parceiros, mas a diferença agora está na escala do projeto, que passa a contar com uma equipe dedicada especificamente a essa frente de expansão.
Um dos desafios técnicos apontados pela própria companhia é que, ao contrário do comércio eletrônico, em que o produto nasceu integrado ao checkout digital, a loja física depende de uma variedade maior de sistemas, processos de caixa e fornecedores de tecnologia diferentes entre si. Reproduzir uma experiência de parcelamento fluida e sem fricção nesse ambiente exige que a fintech negocie e desenvolva integrações específicas para cada tipo de operação de varejo, o que deve tornar essa etapa de expansão mais complexa do que a consolidação obtida no ambiente online.
A empresa também revelou números sobre a fidelização dos consumidores que utilizam sua tecnologia. Segundo a companhia, mais de 80% da receita gerada vem de clientes recorrentes, e dois terços dos usuários aprovados em uma primeira transação realizam uma nova compra parcelada em até 90 dias. Apenas no último trimestre, 1,3 milhão de pessoas utilizaram o serviço da Pagaleve pela primeira vez, o que reforça o ritmo de expansão da base de usuários da fintech.
Autorização do Banco Central chancela a nova fase da empresa
A expansão para o varejo físico coincide com um marco regulatório importante para a companhia: a autorização concedida pelo Banco Central para que a Pagaleve passe a operar formalmente como Instituição de Pagamento, atuando tanto na emissão de instrumento de pagamento pós-pago quanto como iniciadora de transação de pagamento. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União e representa a integração formal da fintech ao Sistema de Pagamentos Brasileiro, com a consequente supervisão direta do órgão regulador sobre suas operações.
Essa autorização traz consigo uma série de exigências regulatórias que passam a valer para a empresa, entre elas capital mínimo, governança corporativa, controles internos, mecanismos de gerenciamento de risco, prevenção à lavagem de dinheiro, estrutura de ouvidoria e envio periódico de informações ao Banco Central. Para o consumidor final, a mudança é praticamente imperceptível no dia a dia, mas, para o mercado, sinaliza um amadurecimento da fintech dentro do arcabouço regulatório do setor financeiro brasileiro.
A companhia também comentou a chegada do Pix parcelado, funcionalidade lançada pelo próprio Banco Central que permite a instituições financeiras oferecer parcelamento diretamente dentro do aplicativo do banco no momento em que o consumidor já optou por pagar via Pix. Segundo Zucareli, embora a novidade pudesse ser vista como uma ameaça direta ao modelo de negócio da Pagaleve, a jornada de uso é diferente, já que no Pix parcelado do Banco Central a oferta de crédito surge depois que o cliente já decidiu utilizar o saldo disponível em conta, enquanto na tecnologia da fintech a opção de parcelamento aparece antes, junto com as demais formas de pagamento no checkout.
Com Ebitda positivo desde o fim de 2024 e resultado líquido também positivo, ainda que a empresa não divulgue os valores absolutos, a Pagaleve opera atualmente com cerca de 200 funcionários e aposta na combinação entre a nova autorização regulatória e a tecnologia de integração com sistemas de automação comercial para consolidar sua presença no varejo físico brasileiro nos próximos meses, um mercado que a companhia considera ainda pouco explorado dentro da própria estratégia de crescimento da fintech.
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